sexta-feira, 29 de março de 2013

Barulho d'água (Sem-ônibus)

Sem-ônibus
 
Frete para o Norte de Minas, caminhão enguiçado à beira da estrada, em ponto remoto e ermo, ainda bem distante do destino. O caminhoneiro resolve caminhar em busca de ajuda. Um deserto só, por quilômetros não se vê nem sequer vacas pastando nos morros ao redor, o sol queima a ponto de fritar borracha. Quase trinta minutos depois, o motorista avista pequena igreja ao fim de íngreme subida de chão batido; antes, passara por um ponto de ônibus. Adentra a capela, um homem varre  preguiçosamente o salão. Cumprimenta-o, explica “quero chegar à cidade mais próxima, preciso de socorro mecânico”. E pergunta: “a que horas, por favor, passa por aqui um ônibus que me levaria até lá?”. Apoiado no cabo da vassoura, o sujeito clone do Mazzaropi coifa a barba, olha para o teto, e depois de alguns segundos, responde: “Isto não sei, não, senhor. Melhor perguntar lá no posto de gasolina!”. “Ah, um posto de gasolina, que bom! Pode ser que eu encontre ajuda nele, então! E onde fica este lugar, é aqui por perto, como eu chego lá?”, quer saber o viajante, animado com a notícia. Rebate o outro, do mesmo modo sereno de linhas acima: “Não, não, senhor. O posto do Turco fica na cidade mesmo, onde mais ficaria por estas bandas? E para chegar lá é só o senhor descer a rua e esperar o ônibus passar pelo ponto, uai!”.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Barulho d'água (Mangas)

Mangas

Tem tesão de babar pela minha bunda.
Diz-me que foi feita à mão.
Por ela, sempre, começamos a farra,
por trás é que, primeiro, ele me traça.
Morde-a, acaricia-a, beija-a, se esfrega,
enquanto a penetra nem sequer resfolega.
Inteirão, lá dentro, se afunda,
reviro os olhos, sinto uns troços,
viro um traço, fico prestes a ter um treco;
ele, frenético, cutuca-me,
vai fundo até que minha cuca se funda:
caimos para o lado, eu semidesfalecida, ele triunfal.
Ah, como eu grito e gemo,
e sinto-lhe o gozo, e gozo, melhor: relaxo.
Ainda dardejante, sem pulso, pulso além da mais longínqua galáxia;
deitada em seu peito trasmuta-me em concha, saciada,
a repousar em abissais e azuladas águas profundas.
Acendo-lhe o cigarro,
juntos o fumamos, gargalhamos, choramos,
isto sim é que é sarro!
Enquanto trago, e tramo, pensamentos bizarros,
etéreo, Meu Amor se refaz expelindo círculos de fumaça:
dentro em breve, mal ele sabe, serei mais ainda devassa,
quererei um orgasmo que me mate e me nasça de novo,
pedaço por pedaço,
até rever-me usando meu primeiro vestido cor-de-rosa,
sem nada, sem nadinha por debaixo,
trepada no galho mais alto, colhendo avermelhadas mangas,
atirando-me ao rapazinho ávido por mim ao pé da árvore,
mastro em riste, o calção azul já joelhos abaixo,
maliciosamente comparando o volume, a forma,
o sabor da fruta com os das minhas tenras nádegas.

Barulho d'água (Acuamento)

Acuamento

Amou pela última vez já nem sabe quando. A traição da mina não sai mais da cabeça. Perdeu o melhor amigo baleado numa emboscada. O intrujo dançou na mão de uma tropa da Cinza, “sem chance de voltar a fazer daquelas lanças”. Para piorar, a grana do bico do prédio em construção continua promessa (“Será que estão me enrolando?”). O derradeiro cigarro do maço virou há dias bituca. Se der o trocado no Paratodos, o não terá para o de comer (“Ou para a pedra...”). A noite está caindo (“Esta garrafa só tem meia dose!? Será que estão me roubando?”). O pandu nas costas ronca repetidas vezes, mas as panelas estão vazias,  o dono da quitanda de Zé nada tem, anda esperto, não aceita pendurar mais nada.
 
A noite assumindo, abafada, não choveu como se esperava. Recebeu o aviso de Dico Rato (“Ou paga, ou te asso no forno, te juro, vacilão!”), e desde a sentença ninguém mais da pala com ele. Quem o encontra sai de quebrada, muda-se de calçada, abaixa a cabeça, consulta o relógio, pigarreia, finge não conhecê-lo. E desgraça pouca, é bobagem: tem alemão dando geral direto no morro, até helicóptero voa penteando e filmando a comunidade. Engole, seco: será que algum filho da puta me caguetou?”

O calor atraindo moscas, lixo de dias amontoado nos cantos. Junto ao monturo há um exemplar do dia do NP, mancheta crime passional. Lera a notícia ainda de manhã, julgou que a suposta “sem vergonha, puta, mulher à toa!” teria merecido tantos pipocos na cara, rosto belíssimo desfigurado em seis colunas. Em seguida, suspirou: “com quem estará e por onde anda Suzana?”. E chorou. Como da última vez.

Agora a lua já vai à meia altura, começa a despencar. No copo a dose passa a ser imaginária. Um zumbido corta a rua (“Sirene? Talvez... mas será?”), estampidos rompem de novo a solidão até instantes apenas burlada pelo chilrear de um grilo (“Nova vingança, talvez... Será que ela está me chifrando?, ah, e se deram o meu barraco?”). Passos apressados nas imediações. Cães latindo, nervosos (“Será um vapor, mas a esta hora?”). Tremedeira. Delírio. Olhos fechados, um corpo na penumbra (“Ahhhhh Suzanaaaaa, vem, vem cá, cadela, hum, gostoso assim, isto, assim, ah, não, não vou te pagar camundongo, que você se foda! Ah, Maluzinha, hum, hum, hã, hã, Suzana, Maluzinha, Suzana, ai, ai, filho de uma puta, eu é quem vou te dar baixa, Suzana, Suzana, ah, hã, hã, ah português sovina, vê se enfia no rabo tua... tua... tua... minha, minha, minha Suzana, Suzana, Maluzinha, não, Suzana, ai, ai, ai, tesão, oh quitanda de merda, hum, gostosa, cachorra, toma, toma, tudo no teu rabo, vaca, ah, ah, ah, hum, hum, ah, ah, ah, ah, bando de babacas, por São Jorge, vocês nunca me pegarão, ah...”). Um leve choque, breve arrebatamento, os dedos, até o jato jorrar lépidos, ficam melados. Alívio. Vazio. Um sinistro chamado, sobressalto, e tome pancadas na porta. Taquicardia. A garrafa, vazia... O maço, vazio... A carteira, vazia... Azia. A alma, vazia. Dedos novamente ágeis, giro no tambor, só uma bala, porta abaixo, um estampido, um baque, seco, ao cair no chão: o próprio .38, agora, também vazio...

Barulho d'água (Lâmpadas de ouvido)

Lâmpadas de ouvido
 
Um rapaz, parado na calçada que separa ambas as pistas da avenida, espera o sinal ficar verde para ele atravessar. Aproximavam-se as sete badaladas da matina. A primeira coisa que vi dele, a cerca de cem metros de distância, o discretíssimo par de fones de ouvido, guardavam a forma de grandes círculos amarelos, tais quais duas lâmpadas incandescentes acesas; poderiam ser, também, o amigo Sol que até aquele instante não havia aberto a janela do quatro, aparecido ao menos para dar um bocejo, espreguiçar-se. Do mesmo ponto de observação pude ouvir as pancadas que a atual geração classifica como sendo música, ribombando...

segunda-feira, 25 de março de 2013

Barulho d'água (Pequena morte)

 Pequena morte
 
É uma pequena morte cair na cama torturado por enxaqueca, às dezesseis horas de uma quarta-feira de sol, para acordar só (e só) às dez horas da quinta-feira. E, ainda, com a dor de cabeça!
 
 

 
 
 

terça-feira, 19 de março de 2013

Barulho d'água (Pequena crônica que morre ao pôr do sol)

Pequena crônica que morre ao pôr do sol

Bêbado, o par de chinelos acabou se perdendo do dono. Quando estiveram juntos pela última vez, Adilson roncava  em decúbito ventral e de boca na areia, ao lado do quiosque do Jamil, depois de entoar loas à lua cheia que prateava as ondas e a praia desde o recorte da serra. Antes de apagar, pranteou amor não correspondido por Andreia -- mulata ingrata que preferiu  dar área do povoado arrastando asas pelo pescador Juvenal, mais moço, bem mais rico. A partir de então, direito e esquerdo se separaram à procura do desiludido. Já conferiram toda a trilha dos bares, dos botecos e das biroscas nos quais bebiam toda santa noite, via sacra solidária ao rapaz enquanto este afogava as mágoas. Consultaram conchas que subiram com as marés, peixes que ainda se debatiam nas redes há pouco retiradas do mar, vasculharam atrás de cada pedra. Nada. Levaram o caso ao distrito. Fizeram abrir gavetas e cumpriram formalidades de praxe no IML da sede da comarca. Afixaram cartazes nas redondezas, em pousadas, em igrejas, na rodoviária. Dispararam alertas nas redes sociais. Filaram anúncio na Gazeta Litorânea. Falaram ao vivo na Rádio Iemanjá. Tudo em vão, não obtiveram sinal algum do desaparecido. Fatigados ao fim de uma semana, hoje decidiram manter as buscas somente até o pôr do sol. Ao escurecer de logo mais, caso não o tenham encontrado, vão enfim calçar outros pés de cana...

Barulho d'água (Vaga)

Vaga

Barulho de xícara se espatifando, olhares convergindo para o mesmo ponto. Pelos altos falantes do Magny Plaza acabaram de solicitar ao proprietário do veículo de placas ER2- O704 que compareça à vaga na qual o carro esteve estacionado...

Barulho d'água (Vaca amarela com abacaxi)

Vaca amarela com abacaxi

Meu coração por ti gela:
esquenta se me deres um kiwi.
A brincadeira da vaca amarela,
fica bem mais divertida com abacaxi.
Macaco prefere banana com canela,
moleque não rejeita sorvete de caqui.
Bezerro escapa pelo vão da cancela,
cachorro marca mourão com o xixi.
Que alvoroço é este no quarto da donzela?
à janela canta um bem-te-vi...

sexta-feira, 15 de março de 2013

Barulho d'água (Haicailinhas)

Haicailinhas
(atualização em 15 de março)
 
Girassóis no quintal--/O nome da rua numa tábua/escrito à mão.
Meu doce lugar--/Até as nuvens se demoram/quando passam por lá.

Meu galo canta-/Tão alto e tão bonito-/que até o sol se levanta.
O gato se espreguiça ---/Da caixa de maçãs/sobem duas orelhas.
Ah, noite sem fim-/O gato não para de miar-/eu não paro de mijar...
Pequena flor branca--/Verga com peso de abelha,/quando venta, dança...
Cada vez mais perto,/o burburinho do rio--/enfim o caminho!
A bola rola... /Da família quero-quero,/apenas uma pena...
Torre de alta tensão./Do lado de cá da cerca,/um jardim de cosmos.
Restos de feira-livre --/Com a cabeça de um peixe,/um gato cruza a rua.
Toca nove vezes/o sino da capelinha --/o trem responde três.
Na quarta volta/já são três sapos cantando/na segunda curva.
Manhã de outono –/há três dias no varal,/o tênis pingando água...
Casa branca,/batentes azuis./À porta, marimbondos!
Casinha na periferia,/cana em ponto de corte,/gatos no quintal...
Andorinha, andorinha:/mesmo não sendo feriado/vou passear à toa!
Em toda a casa/só a cama desarrumada--/gatinha nas cobertas.
Ao colo do pintor,/o gato segue com os olhos/o vaivém do pincel.
Tarde de verão --/entre o voo de dois pardais,/ecoa um trovão.
Tarde chuvosa --/aos trovões misturam-se/sons de uma serraria.
Tarde chuvosa --/na rodovia, lá longe,/acendem-se as luminárias.
Caixote de peras/com alguns cortes e tintas/casinha de tuim
Em papel rosado/prediz um novo amor/a ave do realejo
De varal em varal/o cambacica vai pulando/até chegar ao néctar.
De cordão invisível,/e pingente de estrela,/o colar da lua...
Sopa de estrelas--/cortado como a lua,/o pão que acompanha.
Uma folha cai--/à luz do sol, amarela.../quando gira, verde...
Vão aonde eu vou/não contam nada a ninguém--/ah, meus sapatos...
Meu velho sapato--/ainda guarda segredos,/e não erra caminhos.
Em sonho, voo/ e, nos fios elétricos,/brotam cerejeiras.
Bem-me-quer, mal-me-quer --/o vento desfaz a nuvem/em forma de flor.
Prendedores coloridos,/roupas secando ao sol./Pousa um beija-flor!
Morro de Lindóia --/parecem feitas de pedras/ as vacas brancas que pastam.
Chegada à Jaguariúna--/boi que não está na linha,/segue o trem.
Carro do queijo,/para provar, ninguém paga./E pode ser com doce!
Oh, gato: como podes/divertir-se tanto assim/com um bago de uvas?
Clarão ao longe/leve batuque na janela--/ai vem chuva boa!
Grandes, amarelas.../As pinhas da minha infância/não têm similares.
Rosa lá em cima./Lá embaixo, a molecada/esperando pinhas.
Quarenta caroços --/E ainda está intacta,/metade da pinha!
Buraco na parede,/ passa o ar, passa a luz.../... ai, ai de mim, menina!
Chuva violenta,/entre galhos e fios caídos,/salvou-se a violeta.
Noite de geada —/recados de namorados/no vidro do carro.
Sol de inverno--/Uma calçada repleta,/outra vazia.
Passeio de férias –/Caminho nas ruas da infância/agora de sapatos.
Tudo fica quentinho/onde ela se deita --/gata do Jorginho.
Ah, que viagem! --/ao descascar a laranja,/várias voltas ao mundo...
Estrelas e luas –/a noite, bem quentinhas,/num prato de sopa.
Kombi da pamonha –/tudo quieto, de repente,/no prédio em obras.
Mangueira frondosa --/com seus uis e ais,/prima maravilhosa!
Chuva passageira--/flores de jacarandá/no dorso do cavalo.
Até meu destino/ainda tem muito chão/ -- Ah, pé de goiaba!
Troca na cidade,/leva milho, traz café./Um carro de boi.
Os donos nem saíram,/mas os gatos já subiram,/e dormem na mesa!
Domingo de sol,/toda a família no gramado--/bando de pássaros pretos.
Na fonte da praça,/um mergulho, um voo curto.../bem-te-vi toma banho!
Chuva a caminho./Mesmo apertando os passos,/o vira-lata atrás.
 

quarta-feira, 13 de março de 2013

Barulho d'água (Cidadezinha)

 

Pintura de Sullivan Gaspar retrata cena de Rio Manso região de Itajubá, ao Sul de MG

 
(reedição de 14 de novembro de 2007)

Cidadezinha

A igreja do santo padroeiro no centro da pequena praça.
Um prédio antigo, sede do Paço Municipal.
Mais dois ou três edifícios públicos, misturados ao pequeno comércio.
escolinha lá no alto do morro, caminho para o cemitério.
Poucas casas de portas altas, coloridas e de janelões, com uma simpática vovó numa delas.
A mesma rua que entra, é a que sai.
Distrito policial não tem.
Clube, também não.
Bancos, para quê?
Um cavalo amarrado numa árvore ruminando o tempo.
Cães magrelos perambulando a esmo.
Frajola toscanejando lá no telhado.
Cianças brincando de qualquer coisa.
Um ônibus poeirento parado no ponto, partida às nove, volta às dezenove -- nunca pontuais, pois pressa ali ninguém demonstra.
Uma placa enferrujada indicando o rumo a tomar para a Capital.
Um cartaz no poste anunciando o baile no município vizinho, colado por cima do retrato risonho do, agora, governador do Estado.
Esta cidade não existe, mas pode apostar: é igual a tantos outros pacatos lugarejos perdidos por aí pelos quais todos um dia já passamos.
E deixamos para trás nostálgicos, pensando em adotá-los para o resto da vida...

Barulho d'água (Na fila da livraria)

Na fila da livraria

Há tempos procurava pelo livro, recomendado por vários críticos como sendo um dos melhores do gênero publicado nos tempos mais recentes. Cheguei à livraria, resoluto, esfregando as mãos. Pedi meu exemplar e o atendente o trouxe, quase prontamente. Sem perguntar o preço, segui direto para o caixa. Para variar deparei-me com o desconforto e o transtorno popularmente conhecidos por fila, não importa em qual estabelecimento entremos, fato corriqueiro que demonstra o quanto nós, consumidores e contribuintes, somos respeitados neste país, independentemente do dia e do horário escolhidos para a compra ou busca do serviço. Belarmino de Freitas! Demorou tanto para chegar minha vez, mas tanto, que neste ínterim li o catatau inteiro, de cabo a rabo, incluindo orelhas, biografia do autor, prefácio e posfácio! Quando, enfim, a sorridente moça bradou “O próximo!”, cumprimentei-a educadamente, já recolocando o dinheiro na carteira. Voltei, então, até o vendedor. Devolvi o volume ao rapaz, dei meia volta e me retirei para a cafeteria do shopping.

Barulho d'água (Missa de um ano)

Missa de um ano

Parem as quatro com esta briga, já se passou um ano! Hoje nada de ‘barraco’ como aquele que armaram em meu velório, por favor, preservem minha imagem e minha boa índole, notem a igreja, tem repórter sensacionalista até na sacristia! Não cometi suicídio porque a dor de cotovelo de vocês extrapolou o limite saudável, mas todas cansavam minha beleza com atitudes semelhantes a esta, desequilibradas e infantis! Na verdade eu precisava muito de sossego, sim! De andar pelas ruas sem ser seguido por paparazzi, sem ter meu rosto estampado nas capas das revistas de fofocas como se fosse canalha, sem mencionar que teria acabado batendo as botas de tanto tomar bordoadas dos cornos que fazia. E não me arrependo do meu ato extremo, oh não, tenham certeza. Depois de ter atravessado a ponte que pôs me barba a barba com São Pedro, submeti-me aos ajustes de praxe antes de ser admitido no céu, e atualmente, passeio quase incógnito em meio à multidão trajada de branco. Todo dia é de paz! Refresco meus pés em suaves e límpidos riachos, levitando ao som de música clássica. Colho frutas deliciosas e à vontade se a fome aperta, o sol está sempre de plantão, há no horizonte morros verdejantes e flores de vários tons ao alcance do toque, o firmamento nunca perde o azulíssimo brilho. 
Bom, mas o assunto a ser tratado com todas é outro. Estou aqui para informa-las que meu charme continua em alta, não morreu comigo. Já nas primeiras horas como neófito naquele imenso e sereno jardim conheci uma cabrocha de parar o trânsito – uso a frase por mera força de expressão, é claro, pois por lá carro ninguém tem, andamos sem estresse pelas alamedas e parques; quando queremos variar podemos curtir passeios de bicicleta, ou cavalgar elegantes cavalos, todos irrepreensivelmente alvos! Portanto, gurias, como se a minha passagem já não bastasse, não há mais porque ainda manterem-se fiéis a mim! Arranjem sem demora outro namorado, ou marido novo, afinal a vida (de vocês!) continua. Olha, minha nova companheira é uma das mais bonitas em todo o Éden; outras até me pretendem, e eu, embora não seja mais de carne e osso, admito flertes com algumas, mas juro pela minha alma, apenas discretos, sem envolvimentos! Minha musa é mais velha que eu mais de três séculos, porém o tempo no Paraíso flui de modo particular, não se mede pelo calendário tradicional. Lá não rolam os julgamentos corriqueiros e calcados na moral vigente da sociedade dos mortais. Assim, sem precisar disfarçar ou nos esconder, exceto nos momentos de intimidade, curtimos nosso romance, literalmente, nas nuvens! Vocês estão assim espantadas, mas seguindo-me atentamente, correto? Precisarei frisar que devem me esquecer, pois já tenho outra com quem pretendo passar a eternidade? E, o que é melhor: sem precisar ouvir de e repetir a quem quer que seja aquela frase manjada e mais desrespeitada que o eleitor brasileiro “até que a morte os separe”?

Barulho d'água (Quadrilha da morte)

Quadrilha da morte


Caim pereceu vítima da ira de Abel, que, depois, atormentado, jogou-se em um poço. Santo Cristo levou junto consigo Jeremias, mas abatido por um tiro certeiro de Winchester 22, também tombou. Horas antes da overdose, Maria Lúcia vira Pablo morrer, cavalgando-a ensandecido. Luís estava no lugar errado, na hora errada. Gilda perdeu muito sangue ao dar a luz. O filho dela, dezoito anos depois, a onda levou. A bebida que deram para Marcos continha cicuta. Durante uma ronda pelo bairro, Khalil teve o azar de ser confundido com bandido. Manoel a cobra picou. Tião e a mula rolaram precipício abaixo durante tempestade inesperada. O dono da pizzaria vacilou tentando salvar o máximo possível durante o incêndio. Um desastre custou o adiamento do início da temporada de futebol. Só as bolas sobraram intactas no ônibus capotado. Naquela mesma sinistra curva, um ciclista ficara debaixo das rodas de um caminhão, um ano antes.
Entre os vitimados por doenças conta-se dona Belarmina, já nonagenária e quase cega. O óbito de Lili está registrado como “causas naturais”. A quimioterapia não conteve a metástase pelo corpo de Raimundo. A rejeição por Tereza explica a cirrose que consumiu o primo apaixonado. Acusava-o de ter pernas estúpidas. Como não amava ninguém, ficou para titia, desencarnou intacta. Os jornalistas trigêmeos Gabriel, Miguel e Rafael conseguiram imunizar a moléstia de nascença. A notícia ruim é que fragilizaram pulmões, rins, e estômago, respectivamente. A tia de Joaquim foi dada como desaparecida três semanas depois de fugir do manicômio. Francisco ignorou a cancela abaixada antes da passagem de nível. Não parou. Não olhou. Não escutou. O maquinista, de tanta tristeza, tomou quatro copos de água sanitária. O circo teve de baixar as lonas depois que o leão, em fúria, invadiu o trailer do trapezista. Jússara não resistiu à espera por um leito no único hospital da cidade enquanto ardia em misteriosa febre. O poeta considerou dura demais a crítica ao livro com o qual esperava sair do anonimato. Ao editor reservou três projéteis. Dois alvejaram a secretaria do desafeto. A última bala não repartiu com ninguém.
Também teve aquele menino que queria apenas resgatar a pipa presa ao fio de alta tensão. Antes dele, várias facadas gelaram o coração de Juliana. O mesmo aço interrompeu a roda gigante para João. Com um espinho no peito e sangue nas mãos, o corpo do assassino foi encontrado, e ato contínuo, enterrado, na beira do rio. Zé, naquele domingo, só queria chupar sorvete no parque, entregar uma rosa vermelha à namorada.

Para escrever um final feliz, nestas últimas linhas pensei em ressuscitar cada um dos citados nesta crônica. Entretanto, para quem ainda não soube, ao comemorar um gol do meu time há alguns dias aproximei-me demasiado do parapeito do apartamento e despenquei feito um pacote bêbado por treze andares. Com meu corpo ainda atrapalhando o sábado, J. Pinto Fernandes surgiu do nada e conduziu-me por um longo túnel de luz até o lugar do qual escrevo agora, com os demais todos ao meu redor. Fernandes, que ainda não havia entrado na história, ostentava no peito uma medalha, honraria que obteve dois meses depois de ter conseguido se naturalizar filho de Tio Sam e ser aceito em uma unidade ianque para combater vietcongues.
 

quinta-feira, 7 de março de 2013

Barulho de água (Mão de bêbado...)


Mão de bêbado...

Depois de mais um dia abafado, a tarde refresca finda a pancada de chuva típica de verão. O sol volta entre nuvens e mais brando, uma suave brisa sopra, convites irrecusáveis para um rolê de bicicleta. Aceito a dica, saio a pedalar. Em determinado ponto do trajeto, cruzo com um boteco conhecido por, a qualquer hora, juntar em seu interior e no passeio ao redor tantos vira-latas largados bocejando ou a se coçarem, quanto homens embriagados. Um dos manguaças, sentado em uma cadeira encostada à parede, mergulhado nos braços de Morfeu. De tão trincado, neste sono olímpico o infeliz ronca e baba, não sente a mosca que excursiona pela cara inchada e avermelhada, tão pouco percebe a dona da birosca a pintar as unhas dele com esmalte verde. Os amigos de garrafa a incentivam, gargalham alto -- um dos cachorros até rosna assustado pela caçoada, entrementes o ébrio nem pisca: prossegue mais apagado que estrela cujo brilho acabou cortado por não ter pagado à concessionária a conta de luz. Chego a considerar como “sacanagem” a zoeira com o biriteiro, mas acabo rindo, também. E constato por qual motivo: acabara de descobrir o significado da expressão popular “mão de bêbado não tem dono”.
(Ainda durante o giro com a magrela observo: virou moda utilizar a palavra “combo” para tentar empurrar mercadorias ou serviços oferecidos à clientela em “pacotes”. Utilizar bandejas de isopor para servir milho verde cozido, devidamente desemsabugado pelo marreteiro, é outra mania que se vê em qualquer esquina. Alguns ambulantes, mais higiênicos, chegam ao requinte de usar luvas descartáveis...)

 

Tamanho não é documento

Em outro ponto do percurso feito sobre as duas rodas encontro matilha mais ativa de cães acompanhando uma donzela no cio. Destaca-se entre os totós um de porte pequeno, algo mais que um chihuahua cujo corpo não alcança a metade do comprimento das pernas da fêmea. Apesar da menor estatura, o animal marcha confiante, ignorando os olhares ferozes e os dentes expostos dos maiores. Isto sim é levar a sério o ditado “tamanho não é documento”, agir seguro como quem se julga a altura de um grande conquistador!
Dois haicais
 
Torre de alta tensão./Do lado de cá da cerca,/jardim de cosmos.
Restos de feira-livre --/Com a cabeça de um peixe,/um gato cruza a rua.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Convicção (Barulho d'água)

Convicção

A cabeçada saiu como manda o figurino, de acordo com a cartilha do bom 9. Havia antevido aonde a bola chegaria, e, sem que o marcador percebe-se, disparou feito flecha, subiu com estilo. A ficha do arqueiro, estático, só caiu quando o estrondo grito ecoou das arquibancadas. Sempre concluía jogadas como aquelas com maestria, infalível. Ainda mais quando o centro provinha do pé de Nei Teixeira, o maior companheiro do atual time; não precisavam de nenhum sinal a mais do que uma troca de olhares que, combinados treino após treino, já sabiam de cor o que diziam. Depois, justiça seja feita: perto do alambrado pedia ao amigo a chuteira sobre o joelho direito, engraxava-a, gesto de reconhecimento, de humildade do rei devotado àquele que o assistia e o ajudava a alimentar a majestade, a fama, a súbita riqueza. Com mais aquele na conta, o terceiro no tradicional clássico, isolava-se ainda mais na artilharia da temporada: ninguém avistava no retrovisor há sete rodadas, a vantagem crescia domingo após domingo um, dois, três, quatro, agora, oito.
Ao fim da porfia, a gentil troca de camisas com o joão que em vão tentou contê-lo. Respeito a o adversário derrotado, aperto de mão, abraço cordial, votos de boa sorte em outra ocasião. Torcida em festa, de todos os setores do estádio o nome dele saia de milhares de bocas, em uníssono, mantra entoado pela totalidade dos fãs. Um bloco de repórteres à entrada do túnel, ávidos, câmeras, microfones, holofotes. (O craque soubera antes de a bela rolar: o técnico encarregado de convocar o grupo da seleção para a Copa do Mundo, na manhã seguinte, estava presente nas tribunas.) Chega até os jornalistas, respira, limpa mais uma vez o suor que escorria da testa. Sem pressa, simpático, vai explicando enquanto caminha rumo ao vestiário que a vitória é do grupo, todos seguiram as orientações do treinador, focaram no jogo, que prefere ser campeão a ganhar a “Bola de Ouro”, que apenas ouvira comentários sobre a suposta transferência para a Europa na janela de agosto, não, não havia proposta alguma, apenas meros boatos. Também sem demonstrar empáfia, apenas a confiança de quem sabe o quanto é decisivo, imprescindível, insuperável naquele momento em que o país já está mergulhado no clima, anseia por mais uma glória internacional, devolve a pergunta, sorridente, antes de arrematar: “Se acredito que estarei na lista amanhã? Sim, conto com a minha convocação! E podem escrever e gravar: o caneco voltará ser nosso!”.

domingo, 3 de março de 2013

Barulho d'água (Não é fraca, não! E jamais perde a ternura...)

Não é fraca, não! E jamais perde a ternura...
 
Ainda existe quem joga contra, faz catimba para impedir que elas evoluam, arma a tabela apenas pelas costas.
Desleal, entra de sola, de carrinho, na maldade mesmo, bate acima da medalhinha. ...
Ou na manha, para o juiz não ver.
Mas a mulher atual não é fraca não, e não tem medo de divididas, mano. Almeja vencer e está vestindo a cada dia mais a camisa da luta pelo reconhecimento de suas capacidades. E assim, vai erguendo bem alto a bandeira pelo fim de todas as maneiras de perseguição e de preconceito, vem batendo um bolão no campo da igualdade de direitos, obtendo vitórias não só pelas causas delas. E sem nunca abrir mão da ternura, embora precise de vez em quando mostrar que tem unhas não apenas para esmaltá-las.
Desimpedida, desinibida, destemida, marca golaços dignos de placa!
Neste 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, mais do que nunca, merece ter o nome gritado por todas as torcidas -- inclusive as adversárias -- por ser mãe, esposa, amiga, irmã, filha, profissional, não raro para além do tempo normal, dos descontos e da prorrogação, sem reivindicar por dar todo este sangue bichos mais polpudos, sem fazer concessões ao marketing pessoal.
Por esta mulher sejam estendidas faixas de homenagens em todas as arquibancadas. Já para os que ainda acham que o lugar dela é atrás do tanque, do fogão, vendo novela quietinha, sempre fazendo tudo como reza a cartilha, ou que ela deva satisfazer as fantasias dos se que julgam donos do seu passe e, sem consideração alguma, a qualquer tempo resolve chutá-la para escanteio... vamos exibir cartão vermelho!

sábado, 2 de março de 2013

Barulho d'água (Antes do clarear)

Antes do clarear

Nunca falha. É assim como um camponês que muito cedo acorda e vai regar a pequena lavoura de feijão. Ou tal qual um modesto sitiante que bem antes de o galo cantar pula da cama e, chamando-os pelo nome, trata cada bicho da criação provedora de parte do sustento da família. Todos os dias a madrugada se converte em manhãs, desperta para contemplar o casal de gatos que instantes antes do clarear, religiosamente, acomoda-se na varanda...

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Barulho d'água (Flores)


Flores
Dá um trabalhão manter flores à janela. É preciso tirá-las do alcance dos sóis inclementes, ou dos frios minuanos, pô-las à sombra ou sob uma lâmpada, devidamente arejada e a salvo de pragas. É quase um ritual sexual, cultivo e a curtição de uma paixão. Como apreciam também as estrelas, os luares e a brisa noturna, são sensíveis e até mesmo caprichosas, no momento em que os pássaros se recolhem ao crepúsculo deve-se devolvê-las aos lugares de antes nas floreiras – que, a cada dois meses, reclamam uma nova demão de tinta amarela.
A tarefa compensa. As flores, com o tempo, ganham viço e mais tempo de vida. O jardineiro perde um pouco do estresse. Os cômodos passam a ter outros aromas, tão bons quanto os dos lustra-móveis dos limpadores de pisos que rescendem, evolam do lar aos sábados. O gato também fica mais alegre e caseiro, espiando, ora imóvel, ora inquieto, tentando saltar ao parapeito. Não é à toa: há sempre uma borboleta na área, quando não voando por perto, levemente balançando as asas, pousada na coroa de um crisântemo, de uma margarida...

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Barulho d'água (Bicho de estimação)

Bicho de estimação

A caminho da escola, o garotinho, seis, sete anos de idade, conduzido pela mão do rapaz, pinta de zeloso irmão mais velho. Amanheceu há pouco a sexta-feira. Ainda morno, vai preguiçosamente o sol rua acima aquecendo o percurso. À direita do guri, um filhote de vira-latas, porte pequeno, segue ambos, lado a lado. Tem cara de feliz, o bicho de estimação. Aqui e acolá detém a marcha, quando não aduba, cheira o solo. Ou dispara desvairado em piques repentinos, latindo sem querer parecer feroz, apenas o suficiente para espantar um passarinho, uma borboleta...

Barulho d'água (O gato, o vento, e o camundongo)


O gato, o vento e o camundongo

Olhar fixo no azul, o gato, imóvel na varanda, estacado na contemplativa posição já há tenros minutos. Nesta toada, nada miara até emitir agudo lamento de queixa contra o vento: a nuvem outrora em forma de camundongo acabara de virar apenas mais um entre tantos flocos de algodão...

Três ou mais linhas de prosa... e de poesia


O velho lago
mergulha a rã--
barulho d´água.

Este blog, cujo nome deriva do haicai de Matsuo Bashô, tem por objetivo a divulgação de crônicas e outros gêneros literários de minha autoria -- consulte também
http://www.poesiafeitaemcasa.blogspot.com e http://www.karumi.nafoto.net, outros trabalhos que assino. A cópia e reprodução dos elementos aqui contidos sem a devida autorização, por escrito, e sem estarem negociados direitos autorais e outras questões comerciais, sujeitarão o infrator a entendimentos com a lei.

Marcelino Lima



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