sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Barulho d´água (Lobo mau)

Lobo mau


Empunhando o tridente do rei Tritão (na verdade, um garfo de macarronada), arma poderosa e de fantásticos recursos contra os perigos do fundo do mar, da sala, do quarto, da cozinha, da casa inteira, a criança sentiu-se forte, dominou o medo. Azar do lobo mau, que enquanto batia e centrifugava roupas, uivando e tremendo, assustou-a.
Este texto está postado também no blog "Poesia feita em casa" (www.poesiafeitaemcasa.blogspot.com ), mas alinhado como uma sugestão de poema. Ilustra uma brincadeira do Jorge Henrique quando ele tinha entre três e quatro anos e resolveu enfrentar a máquina de lavar que antes o assustava sempre que começava a chacoalhante etapa de secar roupas...

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Barulho d´água (Haicailinhas 2)

Haicailinhas 2


Um dia destes comecei a buscar em caixas, gavetas e cedês fotos antigas para enriquecer meu álbum digital e, entre elas, resgatei também alguns textos e poemas, enre eles haicais, ou tercetos em forma de haicais. Nesta nova retranca para a série Haicailinhas estão alguns.

Marcelino Lima

Grandes, amarelas./As pinhas da minha infância/não têm similares.
Rosa lá em cima./Lá embaixo, a molecada/esperando pinhas.
Quarenta caroços/E ainda está intacta/metade da pinha.
Buraco na parede,/ passa o ar, passa a luz .../...ai, ai de mim, menina!
Chuva violenta,/cairam árvores e telhas,/salvou-se a violeta.
Noite de geada —/recados de namorados/no vidro do carro.
Sol de inverno--/Uma calçada repleta,/outra vazia.
Passeio de férias –/Caminho nas ruas da infância/agora de sapatos.
Tudo fica quentinho/onde ela se deita --/gata do Jorginho.
Ah, que viagem! --/Ao descascar a laranja,/várias voltas ao mundo.
Estrelas e luas –/a noite, bem quentinha,/num prato de sopa.
Kombi da pamonha –/tudo quieto, de repente,/no prédio em obras.
Mangueira frondosa --/Com seus uis e ais,/prima maravilhosa!
Chuva passageira--/Flores de jacarandá/no dorso do cavalo.
Até meu destino/ainda tem muito chão -- Ah, pé de goiaba!
Troca na cidade./Leva milho, traz café/o carro de boi.
Os donos nem saíram,/mas os gatos já subiram --/e dormem na mesa!
Domingo de sol,/toda a família no gramado--/Doze pássaros pretos.
Na fonte da praça,/um mergulho, um vôo curto.../Bem-te-vi toma banho!
Chuva a caminho./Mesmo apertando os passos,/o vira-lata atrás.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Barulho d´água (O trio)


O trio

Três amigos que dormem numa das praças da cidade dividiam o morno sol das primeiras horas de uma nova manhã, mais um cigarro, enquanto comentavam o resultado do clássico disputado na noite anterior, estampado na manchete do diário esportivo "Na gaveta". O time de um deles vencera o arquirrival após uma épica contenda e este, exultante, comentava a jogada e o golaço que decidiu o acirrado duelo, já aos 48' da etapa final, autêntica pintura do craque da camisa 10 cuja foto ocupava seis colunas da primeira página. Após uma pausa, comentou em tom melancólico que teria sido tão bom de bola quanto o ídolo e brilharia nos gramados caso não sofresse uma fatídica contusão reponsável por afastá-lo das quatro linhas quando ainda era sub 20. Ao notar que os dois parceiros não embarcaram na prosa, levantou a barra da calça da perna esquerda, e na canela, revelou-se uma extensa cicatriz. "Olhem a cirurgia que precisei fazer logo após a entrada daquele zagueirão carniceiro, o Juvenal Scania! O cara me impediu de seguir jogando bola, de virar estrela e ter fama, desgraçado! Depois daquela entrada criminosa e várias operações, acabei chutado para escanteio pela cartolada e, foi assim, inconformado, que perdi o rumo nesta porra de vida!", disse, compungido. "Xi, ainda deve ser o efeito das pingas que tomamos ontem!", comentou o da ponta-direita, tabelando olhares zombeteiros com o colega. "Mas ontem não tomamos nenhuma, justamente para assitirmos ao jogo bem!", o ponteiro oposto emendou, esboçando um riso de trivela. Então, o primeiro, sem deixar pingar, arrematou: "Está explicado, então! O mano está sóbrio demais e, como só fica bem mamado, até já delira! O melhor é irmos logo procurar um cafézinho ou, daqui a pouco, ele estará pensando que é o Negão. E que nós somos o Riva e o Tostão!".
 


 
-------------------------------------------------------------


Nota do autor: O braço do jogador cujo rosto não está visível, colado nas costas do Rei, é o meu e fui eu quem deu o passe para ele marcar!

Três ou mais linhas de prosa... e de poesia


O velho lago
mergulha a rã--
barulho d´água.

Este blog, cujo nome deriva do haicai de Matsuo Bashô, tem por objetivo a divulgação de crônicas e outros gêneros literários de minha autoria -- consulte também
http://www.poesiafeitaemcasa.blogspot.com e http://www.karumi.nafoto.net, outros trabalhos que assino. A cópia e reprodução dos elementos aqui contidos sem a devida autorização, por escrito, e sem estarem negociados direitos autorais e outras questões comerciais, sujeitarão o infrator a entendimentos com a lei.

Marcelino Lima



Marcadores

Arquivo do blog